Dão a Borgonha Portuguesa

Primeiramente alerto aos leitores, esse texto abaixo talvez lhes trará um grande problema … , talvez um delicioso problema … de querer ir o mais breve possível conhecer ou até retornar a região do Dão.

A Região do Dão foi a primeira região demarcada de vinhos não licorosos de Portugal (1908). Nessa área geográfica há produção de grandes vinhos, cheios de complexidade, elegância e de enorme longevidade. Para os grandes apreciadores de vinhos não é nenhuma surpresa e nem exagero a comparação entre essas duas fantásticas regiões vitivinícolas mundiais, o Dão e a Borgonha. Essas duas regiões caracterizam-se por produzirem vinhos tintos com aromas cheios de complexidade e ao mesmo tempo cheios de sutilezas, já em boca apresentam-se com excelente intensidade e com uma estrutura delicada. Por estas razões a Região do Dão é chamada de “Borgonha Portuguesa”.

A belíssima região portuguesa do Dão tem localização centro norte no país. Essa região é batizada com o nome do rio que a atravessa, o rio Dão. Vale aqui uma observação importante que o rio Mondego que nasce na Serra da Estrela *(Foto acima do local exato onde ele nasce a 1425 metros acima do nível do mar) também tem a sua grande importância regional por correr quase que em paralelo com o rio Dão e os dois constituem uma rede hidrográfica extensa que se ajustam aos inúmeros relevos acidentados que essa região possui e se caracteriza.

Esta deslumbrante região também chamada de Beira Alta é um dos mais belos destinos para apreciadores de grandes vinhos. Possui uma localização privilegiada, está rodeada por cadeias de montanhas que as protegem de influências exteriores. As Serras da Estrela e da Nave as protegem das influências do clima continental, já as Serras do Buçaco, do Açor, Lousã a sul e do Caramulo a poente, tem fundamental importância por evitarem a entrada de massas de ar húmido vindos do litoral. Essa região apresenta suas vinhas dispersas, descontínuas e divididas em múltiplas parcelas entre pinhais a diferentes altitudes, podendo está implantadas desde os 1000 metros da Serra da Estrela até aos 200 metros das zonas mais baixas.

A região do Dão está sob um platô de granito, onde rochas se sobressaem num solo com drenagem excelente que contribuem diretamente favorecendo a produção de grandes vinhos. Há também em uma pequena parcela ao sul e ao oeste, a presença de solos xistosos e argilosos em áreas mais planas, originando solos mais férteis com maior capacidade de retenção de água, que ocupam cerca de 2% das áreas de produção de vinhas.

Quanto ao clima é do tipo temperado, os invernos são chuvosos e frios e os verões são quentes e secos, com excelente e larga amplitude térmica. A primavera e o Outono são estações que são irregulares e que pedem um nível maior de atenção pois influenciam na quantidade e qualidade dos vinhos produzidos. Nessas estações podem ocorrer problemas como desavinho (ausência de fecundação das flores) e geadas tardias devido a intensidade de frios e chuvas na Primavera, já no Outono quando são muito chuvosos e demasiados frios dificultam a maturação e favorecem o aparecimento de podridões “as não nobres”. A nível macroclimático, o relevo acidentado e montanhoso e a sua rede hidrográfica criam na região uma enorme quantidade de microclimas que contribuem significativamente para produção de diversidade dos seus vinhos.

Quanto as castas produzidas nessa região, sem dúvida o destaque maior são para as uvas tintas, essas chegando até a 80% da produção, em uma legislação recente foi implantado a exigência de que os vinhos tintos do Dão tem que apresentar ao menos 30% da uva Touriga Nacional, claro que por esta magnífica casta bandeira portuguesa está em seu berço, o Dão, e ser nesta região considerada a rainha, onde ela se expressa em sua plenitude e possui uma alta capacidade de envelhecimento. Mas há diversas outras deliciosas castas tintas produzidas como o Jaen ( Mencía da Galícia) , Alfrocheiro e a Tinta Roriz (Tempranillo).

Faço uma ressalva para a produção de maravilhosos vinhos brancos também, claro que em menor quantidade, mas sem dúvida, com qualidade excepcional, a casta Encruzado é simplesmente magnífica, é encorpada e já se firmou em produzir um dos vinhos varietais brancos mais finos de Portugal. Outras brancas como Malvasia Fina, o Bical, o Cercial Branco e o Gouveio também são produzidas, mas com pouquíssima expressão.

Há uma referência a uma adega boutique que não posso deixar de mencionar, pois considero uma das mais surpreendentes e incríveis adegas do Dão que conheço, nela pude observar que existe em cada fase da produção, desde o preparo da terra até a entrega do vinho aos seus clientes, uma verdadeira obstinação de seus produtores e do seu enólogo em produzir impecavelmente cada garrafa de vinho e quando o colocam na garrafa para venda, sem dúvida podem ficar descansados consumidores e enófilos, será uma maravilhosa experiencia, pois são os verdadeiros néctares do baco. Essa magnifica Adega Boutique é Quinta do Soito, e seus produtores José Carlos e Sandra Soares e seu enólogo Carlos Silva tem com certeza a minha completa admiração e respeito pelo belíssimo trabalho que estão fazendo nessas terras e dentro da adega.

A presença da vinha e a produção de vinho na região do Dão é uma atividade milenar. Os vestígios existentes são inúmeros, houve uma forte implantação de ordens religiosas, que teve um papel fundamental no desenvolvimento vitivinícola, pois os monges, pondo em prática todos os conhecimentos da época, difundiam a cultura da vinha e a correta produção do vinho. Em visita a região fui apresentada ao Real Mosteiro de Santa Maria de Maceira Dão, que foi fundado em 1139 pelos monges de São Bento e mais tarde (1157) passou para ordem de Cister. Uma incrível descoberta pra mim no meio dessas andanças vínicas, pois é maravilhoso nos depararmos com videiras tão antigas, pena que a maioria delas encontram-se no meio da mata totalmente abandonadas, assim também como o próprio Mosteiro, mas soube recentemente que será restaurado, espero também conhece-lo quando assim o estiver.

A gastronomia desta região merecia um artigo a parte, é simplesmente sensacional, uma variedade enorme com opções para todos os gostos, me chama muita atenção a qualidade dos cordeiros e caprinos produzidos nesta área portuguesa.

Há um item da gastronomia do Dão, que já adianto logo aos que lêem esse artigo, amo de paixão, é o queijo da Serra da Estrela, possui a Denominação de Origem Protegida (DOP), que é um conjunto de leis e regras que asseguram sobretudo a qualidade do produto. Um detalhe importante é que o leite deve ser somente de rebanhos ovinos da raça Bordaleira Serra da Estrela e/ou Churra Mondegueira isentos de Brucelose, isto é, com um estatuto sanitário B3 ou superior. Esse leite é sem dúvida muito mais rico em inúmeros nutrientes e alcança um rendimento superior para produção de queijo, enquanto que o leite de vaca é necessário em média 10L para produzir 1KG de queijo, o de ovelha só é necessário 5L para produzir 1KG. É um verdadeiro ícone da gastrostomia portuguesa. É fantasticamente delicioso, é de um sabor incrível e os produzem com uma variedade de tipos de maturação, mas o mais consumido é quando ele está semi-mole, que tira-se a tampa e deliciamo-nos com uma espécie de pasta de sabor intenso. Claro que fui em busca de mais informações de como era produzido essa iguaria desde a principal parte, o rebanho ovino. Descobri também que um dos segredos é a utilização da flor do cardo que atua promovendo a coagulação do leite.

O Dão é cheio de atrações turísticas, vale muito a pena tirar uns dias para desbravar essa maravilhosa região portuguesa. Aproveito este texto para partilhar algumas experiências que considero imperdíveis a quem pelo Dão estiver, pois é de uma riqueza histórico cultural desbravar cada quilometro percorrido.

A cidade de Viseu que é a capital da região, é considerada uma das mais belas cidades portuguesas é cheia de atrações históricas e possui restaurantes magníficos. A Serra do Caramulo (que fica na transição do Dão e da Bairrada), possui o Museu do Caramulo com uma coleção de carros e um acervo de obras de artes de valor único, na mesma cadeia de Serras possui em seu ponto mais alto “o Caramulinho” uma visão espetacular da região toda. A cidade de Belmonte considero visita obrigatória a todos os brasileiros, pois lá está o Castelo Medieval e Paço dos Cabrais, além disso possui o Museu dos Descobrimentos, que é todo interativo e conta toda a verdadeira história dos descobrimentos, com muita riqueza de informação sobre as terras do Brasil. Já em Seia podemos visitar o Museu do Pão, que abriga um restaurante delicioso com uma vista panorâmica belíssima. Subir a Serra da Estrela é sempre um belo passeio em qualquer estação do ano, mas fica a dica sempre consultar a meteorologia, é o ponto mais alto de Portugal continental e as vezes pode surpreender com o clima inesperadamente, em seu topo há uma estação meteorológica, uma estação de esqui e pra cada lado que se olhe há beleza a se contemplar.

Sou confreira da Confraria dos Sabores Luso Amazônicos “Grão Vascos” em (Manaus- Amazonas), que é um braço da Confraria de Sabores e Saberes da Beira “GRÃO VASCOS” que tem a sede na cidade de Viseu (Dão). E pra mim é muito mais um enorme prazer partilhar o que a região do Dão tem de tão fantástico do que uma obrigação estatutária. Considero que devo partilhar tudo o que tiver de melhor do mundo dos vinhos e impossível dissociar isso do enoturismo.

Agradeço a paciência dos leitores de terem chegado até aqui, lendo minhas palavras, convido vocês a fazerem essa viagem vínica, gastronômica, histórica, cultural e sobretudo para dentro de si mesmos, identificando tudo o que lhes proporcionam prazer e felicidade na vida. E pra mim a maioria das vezes são as coisas mais simples.

Fontes Complementares:

4 respostas para ‘Dão a Borgonha Portuguesa

  1. Espetacular!!!… Muitíssimo interessante, pra ler e conhecer em detalhes essa maravilhosa região!!!… Parabéns pelo seu trabalho e dedicação ao mundo maravilhoso do vinho!!!

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  2. A paixão da Dayane pelo vinho e o interesse e dedicação que lhes imprime produzem artigos brilhantes, com informação relevante e que enobrecem as regiões que descreve. O Dão ficou, com toda a certeza, muito mais rico com esta caracterização e com a iniciativa de tão ilustre enófila! Um muito bem-haja pelo interesse demonstrado e muitos parabéns pelo profissionalismo do artigo que, de forma sublime, traduz esta tão nobre região de Portugal!

    Curtido por 1 pessoa

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